A coluna de cinema do FOR|Blog começa falando de um filme que marcou a nossa geração, a produção inglessa Trainspotting é um ícone da cultura dos anos 90. Já foi visto pelo público jovem de diferentes gerações, a adaptação do livro de mesmo nome, do escritor escocês Irvine Welsh, ganhou também versão no teatro, tornando-se filme em 96, com a direção do hoje reconhecido Danny Boyle, premiado recentemente com Oscar, Bafta e o Globo de Ouro pelo filme “Quem Quer Ser um Milionário” e indicado por “127 Horas”.

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A história de Mark Renton, um assumido viciado em heroína, e seus amigos renderam trabalho para diretor, roteirista e escritor. Não queriam mais um filme institucional sobre drogas, como outros que abortaram o tema, mas um filme para um público mais amplo, realmente conseguiram, o filme é um sucesso do cinema Cult!

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Trainspotting vai muito além do seu eixo central, a heroína, cheio de críticas e contestações sociais, o filme representa toda uma geração européia fadada a viver sob a sociabilidade capitalista. Trata dos jovens na consagrada sociedade de consumo dos anos 90, que sem nenhuma alternativa social, (lembremos da derrocada da União Soviética e a conseqüente queda do murro de Berlin em 89) estavam condicionados a viver as regras do jogo sem vislumbrar possibilidades de alterá-las, restava somente a marginalidade, a subversão.

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A narração de Mark Renton mostra o centro da discussão, que vai muita além do vício, expõe claramente todas as escolhas que envolvem essa sociedade de ‘valores’, e a negação a tudo isso, sua escolha e de seus amigos é se por a margem desta sociedade, mesmo sem ter claro os motivos, nas palavras de Mark: “Porque eu iria querer isto? Preferi não ter uma vida. Preferi outra coisa. E os motivos… Não há motivos. Para que motivos, se tem heroína?”

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A heroína é para Mark o motivo, e a negação de todo o resto, e a negação da vida material, sem sentido e da qual ele não espera qualquer tipo de mudança. “Quando se é viciado, só se pensa nisto. E quando não é, é obrigado a pensar num monte de outras coisas (…)”

Mark e seus amigos não aceitam os valores sociais postos, não vêem sentido no estilo de vida padrão, mas não têm nada além da heroína para por no lugar desta vida medíocre. Estão em um mundo niilista, sem perspectiva de mudança, não há alternativa social alguma nas décadas de 80 e 90, não há esquerda posta no mundo, não há mais ideais, somente movimentos de resistência. O punk, o grunge, o (apático) gótico, são movimentos e expressões artísticas que refletiam bem este futuro ausente.

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Com uma excelente direção de arte e trilha Trainspotting faz inúmeras referencias a esse mundo, desde a pop arte de “Andy Warhol”, a discoteca no melhor estilo Moloko, em referência ao consagrado filme “Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick, a trilha sonora com ícones do Indy rock, do pós-punk, como Iggy Pop, Lou Reed, New Order, etc. que cantavam esse desencanto com o mundo. Toda essa atmosfera recriada não é aleatória, faz parte da mesma cultura, compõe a mesma percepção de mundo, a mesma falta de perspectiva no futuro, a negação de tudo.

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Faltava Mark negar a heroína como seu motivo, o jovem passa o filme tentando se livrar do vicio, mas com a heroína tem também de negar suas relações mais humanas, suas amizades, e Mark Renton o faz com um golpe. Resta agora viver essa sociabilidade menos danosa que o vicio da heroína, jogar as regras do jogo, o ultimo monologo é para todos nós que a vivemos.

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“Vou viver. Já estou ansioso. Vou ser como você. Terei trabalho, família, televisão, máquina de lavar, carro um CD player, abridor de latas elétrico, seguro dentário, prestações, casa, roupas esportivas, malas, um bom terno, vou ver TV comendo porcarias, filhos, passear no parque, jogar golfe, lavar o carro ter vários casacos, natal em família, isenção de impostos… Viver, esperando o dia de morrer!”

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Mas o mundo não melhorou com isso ou passou a ser mais interessante, simplesmente foi aceito, será que ainda hoje temos de aceitá-lo? Ou podemos olhar para o futuro com mais perspectivas..!?

A indicação desta semana é um clássico do cinema, o filme “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick nos anos 70 foi uns dos primeiros a falar de um futuro ausente. Conhecido pelo seu figurino excêntrico e um dos cartazes mais estampados da história, Laranja Mecânica ainda é visto como novidade. Confiram o trailer.

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